segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Lições de Nelson


"[Até o século XIX] o idiota era apenas o idiota e como tal se comportava. E o primeiro a saber-se idiota era o próprio idiota. Não tinha ilusões. Julgando-se um inepto nato e hereditário, jamais se atreveu a mover uma palha, ou tirar um cadeira do lugar. Em 50, 100 ou 200 mil anos, nunca um idiota ousou questionar os valores da vida. Simplesmente, não pensava. Os "melhores" pensavam por ele, sentiam por ele, decidiam por ele. Deve-se a Marx o formidável despertar dos idiotas. Estes descobriram que são em maior número e sentiram a embriaguez da onipotência numérica. E, então, aquele sujeito que, há 500 mil anos, limitava-se a babar na gravata, passou a existir socialmente, economicamente, politicamente, culturalmente etc. houve, em toda parte, a explosão triunfal dos idiotas." - Nelson Rodrigues

sábado, 4 de dezembro de 2010

Monkey See, Monkey Do


Às vezes vou até o site da Billboard americana para ver o que anda rolando de novidades musicais no HOT100 Singles. Baixo pelo menos as quatro ou cinco primeiras da parada, ouço, analiso e penso, ”essa música é tão ruim que não vai pegar aqui no Brasil”.
Bom, não preciso nem dizer que dali duas semanas as mesmas estão entre as mais tocadas da Jovem Pan.

(A teoria do desejo mimético responde milhares das minhas questões.)

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

"O mundo é mal, mas eu sou bom."


"Leitores de Rousseau acreditam que o homem nasce bom, até meio rosado, e a sociedade corrupta e má é que o estraga. Nunca entendi isso. A sociedade é feita de outros seres humanos que também nasceram bons. Não sei que sociedade é essa de que essa gente está falando. Deve ser alguém muito mau.

Eu sou leitor do Gênesis. Acho que temos o pecado original e somos a estirpe de Caim. Nascemos maus. Francamente, acho que as crianças atingem níveis de amoralidade e egoísmo que, num ser humano adulto, seriam considerados patológicos. Somos maus. Temos de aprender a ser bons. Eu sei, eu sei, você acha que não, que está cheio de sentimentos sublimes, que a sua nobre alma se escandaliza com a plebe ignara que o maltrata diariamente. É por isso que você nunca fala mal de ninguém, nunca despreza ninguém. Quando você faz isso, é justo. Quando os outros fazem, é maldade. Claro." Pedro Sette

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Keeping up with the Joneses

:is a popular catchphrase in many parts of the English-speaking world. It refers to the desire to be seen as being as good as one's neighbours or contemporaries using the comparative benchmarks of social caste or the accumulation of material goods. To fail to "keep up with the Joneses" is perceived as demonstrating socio-economic or cultural inferiority.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Early Morning


Early morning
8:00 precise
I see the lonely
August sun arise.

Say you know you will
Move like you do
Out in the fields...
Waited the whole night through
Early morning...

sábado, 13 de novembro de 2010

Os livros que mudaram minha vida. - Parte Um -


Mentira romântica e verdade romanesca; Girard explicita e sistematiza uma lição que a propaganda já aprendeu: muitas vezes não desejamos um objeto por uma qualidade que lhe seja intrínseca, mas para nos tornarmos iguais a um modelo. No entanto, se esse modelo for distante, como por exemplo Cristo para um cristão (imitador de Cristo), Amadis de Gaula para D. Quixote, Sófocles para um autor de teatro contemporâneo, a relação de mímese é boa e produtiva. A imitação do modelo distante não é exclusiva; se eu imito Cristo ou Sófocles, você pode imitá-lo do mesmo jeito, sem que eu tenha prejuízo. Porém, se seu modelo for seu amigo, seu vizinho, seu colega, então a relação tem grandes chances de tornar-se uma rivalidade, uma vez que o objeto que confere prestígio ao modelo e lhe dá sua identidade não pode ser dividido. Não posso dividir com meu amigo sua namorada, sua casa ou seu emprego, etc.


A Rebelião das Massas; Gasset começa com a caracterização de um fenômeno de seu tempo, e ainda mais do atual: as aglomerações. Sua descrição é desconcertante. Apresenta um curioso paradoxo: a multidão ocupa o espaço que para ela foi destinado, por exemplo um cinema, mas esta ocupação deixa um sentimento de angústia e origina um problema dos dias atuais: encontrar um lugar. Nesta constatação a primeira característica do homem-massa: ele não atribui a si mesmo um valor, mas se sente “como todo mundo”; não se angustia com isso, sente-se bem por ser idêntico aos demais. Distingue-se da minoria; esta exige mais de si mesma, acumula dificuldades e deveres. Em toda classe social há uma massa e uma minoria. “A característica do momento é que a alma vulgar, sabendo que é vulgar, tem a coragem de afirmar o direito da vulgaridade e o impõe em toda parte.”


“A arte de conhecer a si mesmo”, contém textos de Schopenhauer, na época escritos num caderno, e que o filósofo não quis publicar, e até mesmo destruiu o caderno. Mas seu editor o reconstituiu a partir de pesquisas.
Não pense o leitor que encontrará, só por causa do título, um livro parecido com esses de auto-ajuda. Muito pelo contrário, como o filósofo já era conhecido por sua expressividade ácida, talvez o leitor que espere por isso fique meio chocado, ou totalmente, ao ler um livro de conteúdo acima de tudo pessimista, com toques de acidez e misantropia.
Para alguns, soberbo, para outros, insuportável. Cada leitor que tire sua própria conclusão, onde eu finalizo esta resenha com uma frase de Schopenhauer presente nesse livro: “Num mundo em que pelo menos cinco sextos das pessoas são canalhas, néscias ou imbecis, é preciso que o retraimento seja a base do sistema de vida de cada indivíduo do outro sexto restante”.

domingo, 7 de novembro de 2010

The Unforgettable Fire


Stay this time, stay tonight in a lie.
I'm only asking, but I, I think you know.
Come on take me away, Come on take me home,
Home again.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Montevideo ou a Cidade Fantasma


I was a sailor, I was lost at sea
I was under the waves before love rescued me.
I was a fighter, I could turn on a thread
Now I stand accused of the things I've said.

When love comes to town I'm gonna jump that train
When love comes to town I'm gonna catch that flame.
Maybe I was wrong to ever let you down
But I did what I did before love came to town.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

DreamGirl


...Still you’re my best friend
And after a good, good drunk
You and me wake up and make love
After a deep sleep where i was dreaming
I was dreaming of a
Dream girl

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Crush me


Lovely lady, I am at your feet,
Oh, God, I want you so badly.
And I wonder this:
Could tomorrow be so wonderous
As you there, sleeping?

Let's go drive 'till morning comes.
Watch the sunrise and fill our souls up.
And drink some wine 'till we get drunk.

Crush me, come on...

'SWU' experience


- Joss Stone é tão boa cantora quanto belíssima - o melhor show da noite.

- Show do Dave Matthews é tão bom quanto nos DVDs que já assisti deles - eles nunca fazem shows ruins.

- Regina Spector era um peixe fora d´agua - fofa demais para festivais desse tamanho.

- Sublime With Rome é muito ruim - uma espécie de Charlie Brown Jr gringo.

- Jota Quest e Capital Inicial foram apenas passa tempo - cumpriram o seu papel.

- Paguei 250 reais por um bom lugar (pista premium) - porem quase morri sufocado (e de nervoso)

- Os termômetros marcavam 10 graus a noite.

- Estou velho demais para o Rock´n´Roll.

Ahh, o Kings of Lion não fiz questão de ver.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Free Fallin'


All the vampires walkin' through the valley
Move west down Ventura Boulevard
And all the bad boys are standing in the shadows
All the good girls are home with broken hearts

And I'm free, free fallin´

sábado, 18 de setembro de 2010

Punta del Leste


Palabras,
Que se las lleva el viento y son de mi boca
Pensamientos malos que me envenenan
yo quiero librarme de esta condena


Sonrisas
calor y dulzura pa mis adentros...
Miradas, que rozan la punta el entendimiento
pensamientos puros queme liberan
lleno de bondad y buenos sentimientos

Y encender esa luz
que llevamos dentro...



sexta-feira, 17 de setembro de 2010

The Long Way Home



The Long Way Home

...Well it's time for us to be leaving
It hurts so much - it hurts so much inside
Now she'll go her way
And I'll go mine.

Colonia del Sacramento


Andaba perdia de camino pa la casa
cavilando en lo que soy y en lo que siento
pokito a poko entendiendo
que no vale la pena andar por andar
que´s mejor caminá pa ir creciendo


volvere a encontrame con vosotros
volvere a sonreir en la mañana
volvere con lagrima en los ojo
mirar al cielo y dar las gracias


pokito a poko entendiendo
que no vale la pena andar por andar
que es mejo caminar pa ir creciendo
pokito a poko entendiendo
que no vale la pena andar por andar
que es mejo caminar pa ir creciendo

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Mi gira por Montevideo III


Es duro subir las cuestas
y bajar por las pendientes
cruzar las turbias corrientes
que nadie quiere cruzar.

Pero hay que llegar,
hay que llegar al fin del mundo
al paraiso prometido.

Mi gira por Montevideo II


Es mi vida buscarte,
mi destino es no saber donde encontrarte...

Mi gira por Montevideo


Si me ves andando
por tu misma vía
si me ves llorando
mi melancolía
déjame con mis enredos
(...)

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

A capacidade de ser anticonvencional

Por Flávio Gikovate

Entendida a liberdade como agradável estado de espírito derivado de uma coerência a maior possível entre idéias e atitudes, deveríamos tentar entender agora por que tal postura diante da vida é tão rara. E a primeira coisa que gostaria de assinalar é a seguinte: num período como o que estamos vivendo, o primeiro obstáculo à liberdade é a existência de uma enorme confusão no mundo das idéias; parece ser muito incomum que alguém tenha idéias definidas e claras, de modo que nessas condições sua conduta deveria refletir suas contradições internas; ou então o indivíduo se mantém em uma dada direção – apesar da contradição interna – até que clareiem melhor suas idéias.

Este aspecto é, a meu ver, secundário para a questão da liberdade; o básico é o temor do desafeto e das represálias em geral, ao qual está sujeito o indivíduo que não se comporta conforme os padrões usuais e tidos como aceitáveis. Estruturas sociais repressivas – e creio que são tanto mais repressivas quanto mais sofisticados os agrupamentos sociais – agem sobre cada indivíduo tal que o não comportar-se conforme as expectativas aparece sob a forma de não dispor dos meios materiais de sobrevivência em virtude de não encontrar trabalho. Comportamentos não convencionais determinam também a possibilidade de o indivíduo não ser amado, sendo esta uma das sanções quase que insuportáveis para os homens.

Assim, para sermos amados por nossos pais, colegas e parentes, teremos de agir de modo que não ofenda suas maneiras de ser e de pensar – sim, porque cada um toma a si como um modelo de perfeição a ser proposto especialmente para os filhos, apesar de que a própria pessoa pode se sentir brutalmente infeliz e insatisfeita. As represálias sociais são de tipo análogo: o indivíduo que não se comporta conforme o usual é rejeitado e desprezado; não poderá continuar a se sentir parte integrante daquela coletividade, além de ser punido em suas pretensões de ordem material.

De outra forma, pode se dizer que a liberdade se confunde com a capacidade de uma pessoa de prescindir do amor das outras. O medo da liberdade, presente em todos nós, não é infundado, pois em sociedades como a nossa cada um funciona como repressor dos outros, de tal forma que a liberdade confunde-se com desafetos e solidão.

Uma pessoa será, portanto, tanto mais livre quanto menos interessada e preocupada estiver com a opinião e, portanto, o afeto – das outras. Terá que estar suficientemente forte para suportar as represálias de todo tipo, mas principalmente a sensação de desamparo na medida que uma pessoa se perde de suas convicções – o que significa afastar-se da agradável sensação de liberdade – por temor das represálias, tenta recuperar algum tipo de prazer exibicionista através da busca de destaque social dentro das regras do jogo existente. E, ao perseguir tal objetivo – do qual já não está plenamente convencida –, tenderá a se afastar cada vez mais de suas idéias e pensamentos iniciais, de tal maneira que a sensação íntima é cada vez mais desagradável e insatisfatória; e isto será verdadeiro mesmo para aquelas criaturas que sucederem plenamente nesta busca de destaque social. Serão admiradas e invejadas pela grande maioria dos seus contemporâneos, porém se sentirão profundamente infelizes e frustradas; e mais profundamente solitárias, apesar de terem feito tais concessões para evitar essa dolorosa sensação.

A Origem


Que tal dividir um filme em quatro camadas;

a primeira: Realidade (O que é real?)
a segunda: Sonho-1
a terceira: Sonho dentro do sonho-1
a quarta: Sonho dentro da segunda e terceira.

Isso tudo é dividido dentro da sua própria cabeça.
Foi isso que fez Chris Nolan em A Origem. O que James Camarom fez em Avatar em termos visuais, Nolan fez dentro de nossas cabeças, sem usar 3D.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Síndorme de vítima


A vítima é uma pessoa orgulhosa que veste a capa da humildade. O orgulho dela vem de acreditar que ela é perfeita e que os outros é que não prestam. Crê que se o mundo não fosse do jeito que é‚ se sua esposa não fosse do jeito que é‚ se seus filhos não fossem do jeito que são, se o seu marido fosse diferente, ela estaria bem, porque ela, a vítima, é boa, os outros é que têm deficiências, apenas os outros têm que mudar.

A esse jogo chama-se o "Jogo da Infelicidade". A vítima é uma pessoa que sofre e gosta de fazer os outros sofrerem com o sofrimento dela, é a pessoa que usa suas dificuldades físicas, afetivas, financeiras, conjugais, profissionais, não para crescer, mas para permanecer nelas e, a partir disso, fazer chantagem emocional com as outras pessoas.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Felicidade 2010


"Antigamente, a felicidade era uma missão a ser cumprida, a conquista de algo maior que nos coroasse de louros; a felicidade demandava “sacrifício”. Olhando os retratos antigos,vemos que a felicidade masculina estava ligada à ideia de “dignidade”, vitória de ump rojeto de poder. Vemos os barbudos do século 19 de nariz empinado, perfis de medalha, tirânicos sobre a mulher e os filhos, ocupados em realizar a “felicidade” da família.
Mas, quando eu era criança, via em meus parentes, em minha casa, que a tal felicidade era cortada por uma certa tristeza, quase desejada. Já tinha começado o
desgaste das famílias nucleares pelo ritmo da modernidade.
Hoje, a felicidade é uma obrigação de mercado. Ser deprimido não é mais “comercial”. A infelicidade de hoje é dissimulada pela alegria obrigatória.

É impossível ser feliz como nos anúncios de margarina, é impossível ser sexy como nos comerciais de cerveja. Esta“felicidade” infantil da mídia se dá num mundo cheio de tragédias sem solução, como uma ‘disneylândia’ cercada de homens-bomba.
A felicidade hoje é “não” ver. Felicidade é uma lista de negações. Não ter câncer, não ler jornal, não sofrer pelas desgraças, não olhar os meninos malabaristas no sinal, não ter coração. O mundo está tão sujo e terrível que a proposta que se esconde sob a ideia de felicidade é ser um clone de si mesmo, um androide sem sentimentos.

O mercado demanda uma felicidade dinâmica e incessante, cada vez mais confundida com consumo, como uma “fast-food” da alma. O mundo veloz da internet, do celular, do mercado financeiro nos obriga a uma gincana contra a morte ou velhice, melhor dizendo, contra a obsolescência do produto ou a corrosão dos materiais.

A felicidade é ter bom funcionamento. Há décadas, o precursor McLuhan falou que os meios de comunicação são extensões de nossos braços, olhos e ouvidos. Hoje, nós é que somos extensões das coisas. Fulano é a extensão de um banco, sicrano comporta-se
como um celular, beltrana rebola feito um liquidificador. Assim como a mulher deseja ser um objeto de consumo, como um“avião”,uma máquina peituda, bunduda, o homem também quer ser uma metralhadora, uma Ferrari, um torpedo inteligente, e mais que tudo, um grande pênis voador.
A ideia de felicidade é ser desejado.
Felicidade é ser consumido, é entrar num circuito comercial de sorrisos e festas e virar um objeto de consumo." - Arnaldo Jabor

sábado, 3 de julho de 2010

Modelo de Incompatibilidade


O processo é assim: Pega-se umas quinze ou vinte adolescentes (a maioria tem menos de dezoito anos) com desejos de viver uma vida glamurosa (é como juntar a fome com a vontade de comer), e mães/pais com os mesmos desejos. Condiciona-se as garotas a repetir um modelo ('modelo' nesse caso é, exemplo, alguém a ser copiado, uma Adriana Lima, por exemplo).
Ensinam a seduzir, ensinam a ser sexy, ensinam como criar desejo nos outros; só tem um problema, os homens não podem toca-las, serão presos por pedofilia.

domingo, 27 de junho de 2010

Patriota e idiota


Não sei se por sorte ou lucidez, mas desde adolescente sempre me pareceu ridícula a idéia de patriotismo. Primeiro por achar que, como não escolhi nascer no Brasil, que orgulho posso ter por ter nascido no Brasil? Mas aí alguém vai dizer; ‘Ah, mas você não escolheu os seus pais e mesmo assim deve ter orgulho deles!’ Depende. Esses pais são bons pais? Deram-lhe suporte para crescer, evoluir? Fora isso, essa ligação de patriotismo com paternalismo também é ridícula, pois coloca seu país como sendo um ‘ser’ com vida própria. Um país é formado por indivíduos e não por uma ‘divindade’ chamada Brasil.

Com o passar do tempo fui descobrindo outros fatores que ridicularizam ainda mais a idéia do patriotismo. Por exemplo: A Pátria/Estado é Deus? Representa Deus? Claro que não. Mas é exatamente o que a maioria das pessoas pensam; tem aqueles que ao ouvirem o hino do seu país levantam-se e colocam a mão no peito, como se estivessem diante de algo ‘extra-vida’, uma ‘endeusificação’ do país/estado.

Outras bizarrices do tipo são notadas, ainda mais em épocas de Copa do Mundo.

(Muitíssimo melhor do que eu, explica o Professor George Kateb, que é escritor, cientista político e emérito da Universidade Princeton.)

segunda-feira, 21 de junho de 2010

CALA BOCA BRASIL


Novo rico é aquele que por passar boa parte da vida a margem das coisas bacanas, do acesso a lugares melhores, condições melhores, e quando passa a ter tal acesso fica deslumbrado, perde a noção; por falta de uma suposta 'boa educação' (vulgo Berço) cai nas cafonices e atitudes ridículas.
É exatamente isso que tem acontecido com os usuários brasileiros do Twitter.

domingo, 20 de junho de 2010

Boas almas


Ontem eu fui ver a peça 'A Alma Boa de Setsuan' no teatro Tuca em São Paulo. Um espetáculo maravilhoso, que leva-nos a refletir sobre ser bom num mundo mal; ou melhor, onde e quando somos bons ou maus.

Denise Fraga, MARAVILHOSA!

A alma boa de Setsuan trata-se de um texto de Brecht escrito nos anos 40 e que agora toma lugar em uma montagem de Marco Antônio Braz, em temporada popular, no Teatro Tuca.

O enredo começa quando os deuses vêm à Terra a fim de encontrar uma alma boa. Acreditam eles que no nosso mundo isto está tornando-se cada vez mais raro, o que é, logicamente (?), preocupante.

Na montagem em questão os deuses são apresentados de forma cômica e descompromissada de uma figura religiosa no sentido institucional.

Ao chegarem à província de Setsuan, procuram um lugar para pernoitar e não encontram, a princípio, ninguém que os acolha, confirmando suas suspeitas iniciais de que os homens tornaram-se egoístas e incapazes de dividir. Já quase desistindo, porém, deparam-se com Chen Tê, a prostituta da cidade, que lhes dá um lugar para dormir deixando assim, para isto, de atender a um cliente. Convencidos de que se trata este de um inquestionável e incomum caso de generosidade desinteressada, os deuses oferecem à moça uma alta quantia em dinheiro. Feliz com seu prêmio, Chen Tê deixa de ser prostituta e abre uma tabacaria, no intento de mudar de vida.

Aí começam os conflitos. O povo da cidade, antes acostumado a vê-la como uma mulher pouco digna de respeito, agora quer sua ajuda. Vendo que ela se encontra numa situação diferenciada, em que está provida de uma série de recursos, vão até ela pedindo abrigo, comida, favores. A índole boa de Chen Tê a impede de negar. Sempre disponível, ela atende a todos que a solicitam, metendo, assim, em palavras simples, os pés pelas mãos.

Numa situação limite, decide então compor uma persona falsa. Inventa um primo, veste-se de homem, engrossa a voz, e reveza-se entre este personagem e ela mesma. Como o primo Chui Tá, a ex-prostituta consegue, disfarçada, ter a dureza que em sua forma tradicional é incapaz de demonstrar. Nega, exige direitos, e, em último caso, torna-se mesmo antiética e revela capacidade para os atos maus.

A partir daí a peça se desenrola com muitas situações e uma evolução interessante, incluindo um elemento literário precioso, o amor. Entretanto, este motivo inicial é já suficiente para levantar uma reflexão que requer tempo e, por que não, coragem.

A questão ética que o belíssimo texto de Brecht levanta é a da bondade e generosidade, não em seu aspecto mais óbvio e clichê, mas sim discutindo a liberdade que se tem ou não em ser bom e generoso e a viabilidade destas virtudes no mundo real e moderno. Será possível ser bom num mundo em que se passa fome? E, acima de tudo, qual é o tamanho da fome que justifica cruzar o limite da ética? A resposta pretendida por Brecht, ao que parece, é positiva, mas não ingênua.

A generosidade, embora um valor indiscutivelmente louvável, deve ser acrescida de firmeza. Sim, a gentileza deve ser firme para que possa sustentar-se e, em ação, promover produtos e não perdas.

Aquele que é gentil e que compromete assim sua própria integridade, acaba por desistir da bondade ou perder sua capacidade material e psicológica de exercê-la. Dando tudo e ficando, consequentemente, desprovido de recursos, o gentil torna-se inútil até para si mesmo, além de promover a manutenção perversa das relações de ingratidão e abuso. O que consegue ser gentil, porém firme, pode, no entanto, continuar exercendo generosidade sem que para isso precise dar mais do que tem, ou ainda, o que é importante, do que quer dar.

Falar em alguém bom, ou pior, bonzinho, é quase um desrespeito. A bondade perdeu seu valor social há muito tempo, quando em lugar do gentil passou a ser valorizado o truculento. Aquele que se apresenta socialmente como bom é frequentemente visto como fraco, quando não bobo. A ele não se defere respeito, porque, em detrimento da bondade, prefere-se respeitar o que desperta medo, o que ameaça.

Assim, um empregador, por exemplo, quando conhece sua equipe de trabalho, seus funcionários, terá mais chance de êxito, aparentemente, se demonstrar dureza em vez de docilidade.

A dúvida que fica é: precisa ser assim? Será que não seríamos todos coniventes com isso, no movimento de respeitar quem ameaça e abusar do que oferece, tornando a bondade quase impraticável?

É possível que seja simplesmente uma escolha. De exercício diário e difícil, é verdade, mas exequível e real quando intencionado. O segredo talvez resida em não ter medo de ser gentil e, em consequência, ser abusado. O medo da velha história de estender a mão e ver arrancado o braço. Não será possível estender a mão, firme, sólida, generosa, e, ao mesmo tempo, se necessário for, impor sua necessidade de respeito e a integridade do tal braço, que, neste momento, não pode ser doado?

É provável que o limite seja tênue e que um elemento imponha-se no caminho; o narcisismo do bom. É comum que aquele que faz bondades não possa aceitar ser rejeitado, decepcionar e, assim, quem sabe, despertar ódio e frustração. Mais comum ainda é que esta necessidade de prover ao outro e ser pelo outro visto como um verdadeiro redentor implique em uma falta de capacidade de prover a si mesmo.

A resposta para a pergunta de "o que justifica a falta de ética?" pode ser tudo ou nada. Por isso, pensar diariamente nas escolhas, sobretudo naquelas que concernem às relações, é uma prática de caráter e sabedoria.

Deve haver, acredito, um equilíbrio saudável. O que não parece possível é dar sequência a um estilo de vida, aparentemente o vigente, em que a bondade torna-se rara e desvalorizada, e não seja mais pretensão de ninguém. "O mundo é dos espertos". Será?

Por último, é interessante lembrar que ser bom não consiste em atos grandiloquentes de esforços homéricos. Trata-se apenas, muitas vezes, de disponibilidade. Estar disponível para o outro é já uma ação coerente com o fato de que vivemos num mesmo espaço e tempo.

"Prefiro ser otimista e estar errado a ser pessimista e estar certo."

terça-feira, 15 de junho de 2010

O mérito ou a herança?

Por Joel Pinheiro

A composição da elite americana tem mudado. O poder não está mais nas mãos de umas poucas famílias (majoritariamente protestantes e brancas) cujos filhos podiam ter a certeza de herdar o poder dos pais – entrada garantida nas melhores universidades, altos cargos da política, direção das grandes empresas, financeiras e bancos. Ele é cada vez mais acessível a quem provar o mérito próprio; isto é, a quem tiver o melhor desempenho na escola e, em seguida, nas melhores faculdades.

Mas será que a nova elite, meritocrática, é melhor do que a antiga, hereditária?

Afinal, no que consiste esse “mérito” que tem permitido a ascenção social? No domínio de técnicas e conhecimentos específicos da área em que se quer trabalhar; o político de hoje em dia é o político profissional, que domina a técnica da política; e o mesmo vale para o jornalista (um caso curioso, aliás, pois a elite jornalística não era composta de gente rica – ainda assim, era um clube de difícil acesso a quem vinha de fora), para o dono ou administrador de empresas, etc. A velha elite ao menos provia à sua descendência uma educação abrangente, capaz de lidar com grandes idéias e conceitos. A perspectiva de deixar um legado aos filhos também produzia, segundo o articulista, um incentivo em se pensar no longo prazo, ao contrário dos tecnólogos atuais, para quem – da política ao mundo financeiro – só o presente importa.

Afinal, o que era melhor (ou pior)? O privilégio hereditário, fechado e excludente, mas promotor de uma formação mais global e humana; ou a meritocracia democrática, transparente e aberta a todos, mas produtora de fileiras de mentes formatadas às suas especializações?

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Infantilização

Jose Ortege y Gasset escreveu 'A Rebelião das Massas' entre 1927 e 1930; lendo essa obra fiquei impactado pela atualidade das informações, como se a obra fosse destinada para esse nosso atual tempo;

"O que realmente me parece evidente é que nosso tempo se caracteriza pelo extremo predomínio dos jovens. É surpreendente que em povos tão velhos como os nossos, e depois de uma guerra mais triste que heróica, toma a vida de repente um aspecto de triunfante juventude. Na realidade, como tantas outras coisas, este império dos jovens vinha se preparando desde 1890, desde o fin de siècle. Hoje de um lugar, amanhã de outro, foram desalojadas a madureza e a ancianidade: em seu oposto se instalava o homem jovem com seus peculiares atributos.

Eu não sei se este triunfo da juventude será um fenômeno passageiro ou uma atitude profunda que a vida humana tomou e que chegará a qualificar toda uma época. E preciso que passe algum tempo para poder aventurar este prognóstico. O fenômeno é demasiado recente e ainda não se pode ver se esta nova vida in modo juventutis será capaz do que depois direi, sem o que não é possível a perduração de seu triunfo. Mas se fossemos atender só ao aspecto do momento atual, seremos forçados a dizer: tem havido na história outras épocas em que predominaram os jovens, mas nunca, entre as bem conhecidas, (104) o predomínio tem sido tão extremado e exclusivo. Nos séculos clássicos da Grécia, a vida toda organiza-se em torno do efebo, mas junto a ele, e como potência compensatória, está o homem maduro que o educa e dirige. A parelha Sócrates-Alcibíades simboliza muito bem a equação dinâmica de juventude e madureza desde o século V no tempo de Alexandre. O jovem Alcibíades triunfa sobre a sociedade, mas sob condição de servir ao espírito que Sócrates representa. Deste modo, a graça e o vigor juvenis são postos a serviço de algo acima deles, que lhes serve de norma, de incitação e de freio.
(...)
Nas gerações anteriores a juventude vivia preocupada com a madureza. Admirava os maiores, recebia deles as normas - em arte, ciência, política, usos e regime de vida -, esperava sua aprovação e temia seu enfado. Só se entregava a si mesma, ao que é peculiar a tal idade, subrepticiamente e como à margem. Os jovens sentiam sua própria juventude como uma transgressão do que é devido. Objetivamente se manifestava isto no fato de que a vida social não estava organizada em vista deles. Os costumes, os prazeres públicos haviam sido ajustados ao tipo de vida próprio para as pessoas maduras, e eles tinham de se contentar com as zurrapas que estas lhes deixavam ou lançar-se às estroinices. Até no vestir viam-se forçados a imitar os velhos: as modas estavam inspiradas na conveniência da gente maior. As moças sonhavam com o momento em que se vestiriam "à vontade", quer dizer, em que adotariam o traje de suas mães. Em suma, a juventude vivia a serviço da madureza.

A mudança operada neste ponto é fantástica. Hoje a juventude parece dona indiscutível da situação, e todos os seus movimentos vão saturados de domínio. Em sua atitude transparece bem claramente que não se preocupa o mínimo com a outra idade. O jovem atual habita hoje sua juventude com tal resolução e denodo, com tal abandono e segurança, que parece existir só nela. O que a madureza pense dela não lhe importa um caracol; mais ainda: a madureza possui a seus olhos um valor próximo ao cômico.

Mudaram-se as tornas. Hoje o homem e a mulher maduros vivem quase sobressaltados, com a vaga impressão de que quase não têm direito a existir. Advertem a invasão do mundo pela mocidade como tal e começam a fazer gestos servis. Desde logo, imitam-na no trajar. (Tenho sustentado muitas vezes que as modas não eram um fato frívolo, mas um fenômeno de grande transcendência histórica, obediente a causas profundas. O exemplo presente esclarece com exaustiva evidência essa afirmação)."
(Jose Ortega y Gasset, El Sol, Madrid, junho de 1927.)

domingo, 13 de junho de 2010

Individualismo;


"O individualismo egocêntrico reduz cada indivíduo a uma entidade auto-suficiente sem maior interesse para o resto do mundo. Não é disso que estamos falando. Estamos falando contra o coletivismo inquisitorial, que pretende que todos sigam uma determinada idéia como se ela fosse um dogma inquestionável. Estamos falando contra a adesão irracional a uma idéia sem o devido exame. Somos, enfim, contra o espírito de rebanho de que falava Nietzsche, tendência natural do ser humano. Não queremos tratar com gado: queremos tratar com indivíduos conscientes.

Que não se tome essa “consciência” no sentido político. Não falamos de indivíduos conscientes da mesma forma que falam as esquerdas. Não se trata de conscientizar ninguém da sua condição social ou coisas desse tipo, mas de levar cada um a admitir para si mesmo aquilo que sabe, a analisar as idéias que diz professar à luz do próprio eu,..."
- Sergio de Biasi

terça-feira, 1 de junho de 2010

Concluo que;


"A caminhada na direção certa leva não só à paz, mas também ao conhecimento. Quando um homem melhora, torna-se cada vez mais capaz de perceber o mal que ainda existe dentro de si. Quando um homem piora, torna-se cada vez menos capaz de captar a própria maldade. Um homem moderadamente mau sabe que não é muito bom; um homem completamente mau acha que está coberto de razão. Nós sabemos disso intuitivamente. Entendemos o sono quando estamos acordados, não quando adormecidos. Percebemos os erros de aritmética quando nossa mente está funcionando direito, não no momento em que os cometemos. Compreendemos a natureza da embriaguez quando estamos sóbrios, não quando bêbados. As pessoas boas conhecem tanto o bem quanto o mal; as pessoas más não conhecem nenhum dos dois." C.S. Lewis

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Pecados Públicos


Não reclamo. Apenas constato. Tem ficado cada vez mais difícil a gente se reconciliar com os erros cometidos. O motivo é simples. A vida privada acabou. O acontecimento particular passa a pertencer a todos. A internet é um recurso para que isso aconteça. Os poucos minutos noticiados não cairão no esquecimento. Há um modo de fazê-los perdurarem. Quem não viu poderá ver. Repetidas vezes. É só procurar o caminho, digitar uma palavra para a busca.

Tudo tem sido assim. A socialização da notícia é um fato novo, interessantíssimo. Possibilita a informação aos que não estavam diante da TV no momento em que foi exibida.

A internet nos oferece uma porta que nos devolve ao passado. Fico fascinado com a possibilidade de rever as aberturas dos programas do meu tempo de infância. As imagens que permaneciam vivas no inconsciente reencontram a realidade das cores, movimentos e dos sons.

Mas o que fazer quando a imagem disponível refere-se ao momento trágico da vida de uma pessoa? Indigência exposta, ferida que foi cavada pelos dedos pontiagudos da fragilidade humana? Ainda é cedo para dizer. Este novo tempo ainda balbucia suas primeiras palavras.

O certo é que a imagem eterniza o erro, o deslize. Ficará para posteridade. Estará resguardada, assim como o museu resguarda documentos que nos recordam a história do mundo.

Coisas da contemporaneidade. Os recursos tecnológicos nos permitem eternizar belezas e feiúras.

Uma fala sobre o erro. Eles nascem de nossa condição humana. Somos falíveis. É estatuto que não podemos negar. Somos insuficientes, como tão bem sugeriu o filósofo francês, Blaise Pascal. O bem que conhecemos nem sempre atinge nossas ações. Todo mundo erra. Uns mais, outros menos. Admitir os erros é questão de maturidade. Esperamos que todos o façam. É nobre assumir a verdade, esclarecer os fatos. Mais que isso. É necessário assumir as conseqüências jurídicas e morais dos erros cometidos. Não se trata de sugerir acobertamento, nem tampouco solicitar que afrouxem as regras. Quero apenas refletir sobre uma das inadequações que a vida moderna estabeleceu para a condição humana.

Tenho aprendido que o direito de colocar uma pedra sobre o erro faz parte de toda experiência de reconciliação pessoal. Virar a página, recomeçar, esquecer o peso do deslize é fundamental para que a pessoa possa ser capaz de reassumir a vida depois da queda. É como ajeitar uma peça que ficou sem encaixe. O prosseguimento requer adequação dos desajustes. E isso requer esquecer. Depois de pagar pelo erro cometido a pessoa deveria ter o direito de perder o peso da culpa. O arrependimento edifica, mas a culpa destrói.

Mas como perder o malefício do erro se a imagem perpetua no tempo o que na alma não queremos mais trazer? Nasce o impasse. O homem hoje perdoado ainda permanecerá aprisionado na imagem. A vida virtual não liberta a real, mas a coloca na perspectiva de um julgamento eterno. A morbidez do momento não se esvai da imagem. Será recordada toda vez que alguém se sentir no direito de retirar a pedra da sepultura. E assim o passado não passa, mas permanece digitalizado, pronto para reacender a dor moral que a imagem recorda.

Estamos na era dos pecados públicos. Acusadores e defensores se digladiam nos inúmeros territórios da vida virtual. Ambos a acenderem o fogo que indica o lugar onde a vítima padece. A alguns o anonimato encoraja. Gritam suas denúncias como se estivessem protegidos por uma blindagem moral. Como se também não cometessem erros. Como se estivessem em estado de absoluta coerência. No conforto de suas histórias preservadas, empunham as pedras para atacar os eleitos do momento.

O fato é que o pecador público exerce o papel de vítima expiatória social. Nele todas as iras são depositadas porque nele todas as misérias são reconhecidas. No pecado do outro nós também queremos purgar o pecado que está em nós. Em formatos diferentes, mas está. Crimes menores, maiores; não sei. Mas crimes. Deslizes diários que nos recordam que somos território da indigência. O pecador exposto na vitrine deixa de ser organismo. Em sua dignidade negada ele se transforma em mecanismo de purificação coletiva. É preciso cautela. Nossos gritos de indignação nem sempre são sinceros. Podem estar a serviço de nossos medos. Ao gritar a defesa ou a condenação podemos criar a doce e temporária sensação de que o erro é uma realidade que não nos pertence. Assumimos o direito de nos excluir da classe dos miseráveis, porque enquanto o pecador permanecer exposto em sua miséria, nós nos sentiremos protegidos.

Mas essa proteção que não protege é a mãe da hipocrisia. Dela não podemos esperar crescimento humano, nem tampouco o florescimento da misericórdia. Uma coisa é certa. Quando a misericórdia deixa de fazer parte da vida humana, tudo fica mais difícil. É a partir dela que podemos reencontrar o caminho. O erro humano só pode ser superado quando aquele que erra encontra um espaço misericordioso que o ajude a reorientar a conduta.

Nisso somos todos iguais. Acusadores e defensores. Ou há alguém entre nós que nunca tenha necessitado de ser olhado com misericórida?
(Fábio de Melo)

terça-feira, 18 de maio de 2010

Miss Blanchett


"Eu não estou concentrada no que as pessoas pensam sobre mim. Algumas pessoas te entendem, outras não, e você passa sua vida inteira tentando fazer as pessoas entenderem quando profundo e complexo você é - isso vira uma loucura" Cate Blanchett.

Por essas e por outras, adoro essa mulher.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Pílula azul ou vermelha?


"Um dos trechos instigantes da República, de Platão, é o final da alegoria da caverna. Nele, o filósofo prevê que o homem que volta à caverna, depois de ter visto a realidade de fora, poderia não ser entendido pelos que continuaram na escuridão. Estes considerariam que não valeria a pena sair da caverna, e talvez até tentassem matar aquele que os procurava libertar das ilusões. Esse ódio contra quem vê além é, infelizmente, recorrente na história da humanidade." (Renato Moraes)

Para entender tudo isso, nada melhor do que o cinema para explicar.
Eu já não volto mais.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Solucionática


O Kassab quer por o Minhocão abaixo. Sou contra, em partes. Literalmente em partes. Acho que ele pode ser preservado em alguns trechos e ser transformado em parque ou áreas de convivência, assim como foi feito numa linha de trem desativada em NY, o High Line Park.

Por mais bizarra que tenha sido a obra do Minhocão, é algo que já faz parte da história de São Paulo, algo que no passado foi uma bizarrice, hoje pode se tornar algo útil – um parque ou ciclovia suspensos. Um jardim babilônico-paulistano (projeto).

quinta-feira, 6 de maio de 2010

A busca pela razão


"Toda e qualquer discussão pode ser contaminada mimeticamente. O exemplo mais gritante é o da discussão de futebol. Será o Flamengo melhor do que o Fluminense? Ora, isso é muito fácil de responder. Basta que as duas partes concordem em adotar critérios objetivos e chegarão a uma resposta. Essa resposta, por sua vez, tende a ser complexa: “O Flamengo fez mais X, e o Fluminense fez mais Y.” Desse modo, vai ficar claro que sob alguns aspectos um time é melhor, mas sob outro o outro time é que é. Não é essa, porém, a resposta que o torcedor busca. Insatisfeito, ele vai mencionar algum fator intangível e/ou extra-futebolístico (“o Flamengo é o time do povo brasileiro”) para justificar a superioridade de seu time."

Texto Pedro Sette-Câmara.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Twitt

Keeping up with the Jonesesless than a minute ago via web

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Aula sobre mimetismo no cinema



"Steve e Kate são bonitos, ricos e charmosos. Tem um casal de filhos adolescentes bonitos, ricos e charmosos. Acabaram de se mudar para um daqueles opulentos subúrbios americanos, com ruas arborizadas e casas enormes, onde temos a impressão que nunca faz mau tempo. Desembarcam em sua nova vizinhança a bordo de um carro bonito, caro e recém-saído da concessionária. Quando os vizinhos tocam a campainha para dar-lhes as boas vindas, a imagem atrás da porta que se abre é o clichê da família perfeita.

Só que essa família não existe. Os quatro são funcionários de uma poderosa empresa de marketing que cria famílias perfeitas em diferentes partes do mundo para vender os mais variados produtos, de carros a lingerie. A missão da equipe é tornar-se um modelo a ser admirado, em seguida invejado, finalmente seguido. De tempos em tempos, eles recebem os informes de quanto as vendas de produtos aumentaram com a sua atuação – e são avaliados pelos resultados. Uma sacada genial de marketing – digamos que um passo além dos comerciais e merchandisings a que já nos acostumamos.

Este é o enredo de The Joneses, filme de Derrick Borte, que deverá estrear no Brasil em breve. Demi Moore é Kate, mãe de família e chefe da equipe. David Duchovny, que se tornou conhecido pelo seriado Arquivo-X, é Steve. Jones, quase tão comum quanto Silva ou Souza nos Estados Unidos, é o sobrenome inventado. O filme, claro, é uma sátira à sociedade de consumo. Em pouco tempo, os Jones-pais são um sucesso na vizinhança e os Jones-filhos arrasam na escola. As vendas de tudo o que usam disparam. O capitalismo triunfa."


Texto Eliane Brum - ÉPOCA

domingo, 2 de maio de 2010

A Europa está falindo


Tudo leva a crer que a Europa vai passar por um longo período de crise, puxado pela mega crise na Grécia. Agora, Alemanha, Inglaterra, França e Espanha vão ter que partir em socorro aos gregos, mesmo a contra gosto dos alemães. Se não ajudar o bicho pega e a coisa pode ficar ainda pior. O Euro está doente.

O dólar também está doente, e a economia americana também vai mal. E agora chegou a hora da minha pergunta: Quem fica bem com essa história toda? Nós, claro! E ainda pra ajudar, a revista Time coloca o nosso presidente entre os 100 lideres mais influentes no mundo. Mas os anti-Lula podem ficar tranqüilos, pois fosse qual fosse o presidente, ele estaria nessa lista. Isso é uma vitória do país e não de um homem só.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Reflexões entre Amigos

"A condição humana será sempre bem-vinda às nossas reflexões. Será sempre a base de uma boa prosa, afinal, toda vez que sobre ela refletimos, de alguma forma estamos alterando o que somos."
(...)
Sua carta me fez recordar da ágora, a praça grega que foi lugar onde as experiências filosóficas ganharam caráter dialético. A ágora era um lugar de encontro. A principal atividade que os gregos exerciam por lá era a troca de mercadorias. Mas, naquele grande mercado a céu aberto, uma outra troca acontecia a ponto de prevalecer sobre as outras. Era a troca de ideias. Enquanto a materialidade era negociada sempre sobrava espaço para uma conversa, uma troca de opiniões.
Tive um grande professor de História da Filosofia que fazia questão de nos dizer que foi na ágora que a filosofia assumiu o seu verdadeiro papel na sociedade. A filosofia do cotidiano, a reflexão nossa de cada dia. A arte de articular o pensamento como realidade dialética, que extrapola a verdade hermética, fechada, mas que se abre à percepção do outro.

A filosofia que é construída a partir da vida concreta das pessoas. A trama da existência e seus fios tão cheios de nuances. A filosofia como tear que tece e favorece a compreensão do entrelaçamento das linhas."
- Fábio de Melo (Cartas entre Amigos - Sobre Perder e Ganhar)

WINTER SONGS



quinta-feira, 29 de abril de 2010

A vitimização da inveja


Hoje eu vi num Msn a seguinte frase: "A felicidade dos outros corrói, causa inveja.”

Reparem como é sempre “um alguém que sente inveja de mim”, nunca o contrário. Ninguém escreve no Msn; “hoje EU tô morrendo de inveja da fulana de tal.”
Quando a pessoa assume a inveja, ela diz que é uma “inveja boa”. Oras, como se existisse inveja boa! A inveja no caso só é boa porque é Ela quem sente, se fosse o Outro, ia ser inveja ruim mesmo.

Mas eu pensei o seguinte: será que não tem pessoas que se especializam em causar inveja? Tudo que a pessoa faz é de caso pensado pra causar inveja/desejo em alguém; compra coisas pra causar inveja, faz viagens pra causar inveja, tira fotos pensando em mostrar pra causar inveja, usa certas marcas (grifes) pra causar inveja, e por aí vai. Eu mesmo conheci uma pessoa que não tinha o menor pudor em dizer que ia fazer tal coisa só pra causar inveja numa colega (rival). Aí essa mesma pessoa que fez inveja pra outra, diz que os outros sentem inveja dela. Pois é...
Dizer que alguém sente inveja dela, a torna ainda mais desejável (lhe dá mais status). Quanto mais gente sentindo inveja da pessoa, mais desejada ela se torna.

Tudo isso é demasiadamente humano; um círculo vicioso que gera violência.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

A compreensão frente ao Outro

(Emmanuel Lévinas)

"O problema do Outro, a nossa atitude face a ele, constitui um dos temas principais das reflexões de Emmanuel Lévinas. Decorre de um tipo de reacção que teve em relação às experiências da primeira metade do século XX, e que conduziu à crise da civilização ocidental, particularmente a degradação das relações interpessoais entre o Eu e o Outro.

Emmanuel Lévinas, de origem judaica, e tendo nascido na Lituânia, tornou-se num filósofo francês da tradição fenomenológica, vindo a falecer em Paris em 25 de Dezembro de 1995.

É no face-a-face humano que irrompe todo o sentido. É diante do rosto do Outro que o sujeito dá conta que é um ser responsável. O Outro é alteridade, que não é um simples inverso da identidade, mas a incorporação de um Outro no Si-próprio sem resistência. Neste caso o Outro não é verdadeiramente outro. A colectividade do ‘nós’ não é um plural de ‘eu’. A obra de Lévinas transmite o alerta de uma emergência ética de se repensar os caminhos da filosofia a partir de um novo prisma, de se partir do Eu em direcção ao Outro. Uma tal inspiração Lévinas foi buscá-la aos Livros Sapienciais da Bíblia.

O tempo da consciencialização de Lévinas coincide com a formação da sociedade de massas na Europa e com o surgimento de dois sistemas totalitários: o comunismo e o fascismo. O homem da ‘sociedade de massas’ ao concretizar-se em massa amorfa e anónima, vai transformar-se em barbárie, que é a ausência de qualquer relação interpessoal. É a indiferença pelo Outro, e, devido à sua desestruturação social, se vai tornar mais vulnerável, e com isso mais propenso para o mal. Daí todas as trágicas consequências que emergiram em meados do século XX, que para Lévinas tem o seu expoente máximo de desumanidade em Auschwitz e no Holocausto.

Lévinas diz não só que é preciso encontrar o Outro, como recebê-lo em franco convívio. E chama a nossa atenção para que sejamos sensíveis perante o rosto do Outro, apesar de ser diferente. O rosto é o modo como o Outro se nos apresenta. Não terá que ser exactamente uma imagem. O rosto de Outrem destrói em cada instante e ultrapassa a imagem plástica que ele nos deixa, não se manifestando por essas qualidades mas exprimindo-se.

Lévinas diz que o Outro é sempre uma pessoa singular, um indivíduo. O homem quando está sozinho é sempre melhor ser humano do que quando está no meio duma multidão, duma massa excitada. Como indivíduos costumamos ser mais sensatos e melhores pessoas. A inserção num grupo pode transformar um indivíduo tímido e amável num ser diabólico. Lévinas quis livrar-nos do egoísmo e da auto-exclusão."

terça-feira, 27 de abril de 2010

Desejo pelo desejo do meu 'modelo'


"A partir de Freud o homem nunca mais foi o mesmo; tornou-se mais desejoso. Passou a cobiçar mais, a invejar mais, a desejar mais. O licencioso transmutou-se em lícito. Talvez seja inspirado na pesquisa do Doutor de Viena e em outros que Girard tem dedicado uma relevante atenção à questão do desejo. Em seu livro 'Mensonge Romantique e VéritéRomanesque' (Paris: 1961) discorre largamente sobre a questão, aventando a hipótese do Desejo Triangular, como motor de várias expressões literárias, adejando de Dostoieviski a Stendhal. Em A 'Violência e o Sagrado' o tema retorna com colorações diferentes, do Desejo Mimético.

A mímese é de inestimável valor para toda a Literatura. No eito da Poética de Aristóteles, todos os críticos de um modo ou de outro se hão com esse aspecto do complexo teórico. Girard direciona-se à questão ínvida da mímese. Muito mais do que a imitação da ação, ela se torna especificação do desejo assumindo uma morfologia adjetival e, portanto, complementar.
Ao mostrar o homem como um ser que sabe perfeitamente o que deseja, ou, se aparentemente não o sabe, como um ser que sempre tem um "inconsciente" que sabe por ele, os teóricos modernos talvez tenham neglicenciado um domínio onde a incerteza humana é a mais flagrante. Uma vez que seus desejos primários estejam satisfeitos, e às vezes mesmo antes,o homem deseja intensamente, mas ele não sabe exatamente o quê, pois, é o ser que ele deseja, um ser do qual se sente privado e do qual algum outro parece-lhe ser dotado. O sujeito espera que este outro diga-lhe o que é necessário desejar para adquirir este ser. Se o modelo, aparentemente já dotado de um ser superior, deseja algo, só pode se tratar de um objeto capaz de conferir uma plenitude de ser ainda mais total. Não é através de palavras, mas de seu próprio desejo que o modelo designa ao sujeito o objeto sumamente desejável."
- René Girard