quinta-feira, 6 de maio de 2010

A busca pela razão


"Toda e qualquer discussão pode ser contaminada mimeticamente. O exemplo mais gritante é o da discussão de futebol. Será o Flamengo melhor do que o Fluminense? Ora, isso é muito fácil de responder. Basta que as duas partes concordem em adotar critérios objetivos e chegarão a uma resposta. Essa resposta, por sua vez, tende a ser complexa: “O Flamengo fez mais X, e o Fluminense fez mais Y.” Desse modo, vai ficar claro que sob alguns aspectos um time é melhor, mas sob outro o outro time é que é. Não é essa, porém, a resposta que o torcedor busca. Insatisfeito, ele vai mencionar algum fator intangível e/ou extra-futebolístico (“o Flamengo é o time do povo brasileiro”) para justificar a superioridade de seu time."

Texto Pedro Sette-Câmara.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Twitt

Keeping up with the Jonesesless than a minute ago via web

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Aula sobre mimetismo no cinema



"Steve e Kate são bonitos, ricos e charmosos. Tem um casal de filhos adolescentes bonitos, ricos e charmosos. Acabaram de se mudar para um daqueles opulentos subúrbios americanos, com ruas arborizadas e casas enormes, onde temos a impressão que nunca faz mau tempo. Desembarcam em sua nova vizinhança a bordo de um carro bonito, caro e recém-saído da concessionária. Quando os vizinhos tocam a campainha para dar-lhes as boas vindas, a imagem atrás da porta que se abre é o clichê da família perfeita.

Só que essa família não existe. Os quatro são funcionários de uma poderosa empresa de marketing que cria famílias perfeitas em diferentes partes do mundo para vender os mais variados produtos, de carros a lingerie. A missão da equipe é tornar-se um modelo a ser admirado, em seguida invejado, finalmente seguido. De tempos em tempos, eles recebem os informes de quanto as vendas de produtos aumentaram com a sua atuação – e são avaliados pelos resultados. Uma sacada genial de marketing – digamos que um passo além dos comerciais e merchandisings a que já nos acostumamos.

Este é o enredo de The Joneses, filme de Derrick Borte, que deverá estrear no Brasil em breve. Demi Moore é Kate, mãe de família e chefe da equipe. David Duchovny, que se tornou conhecido pelo seriado Arquivo-X, é Steve. Jones, quase tão comum quanto Silva ou Souza nos Estados Unidos, é o sobrenome inventado. O filme, claro, é uma sátira à sociedade de consumo. Em pouco tempo, os Jones-pais são um sucesso na vizinhança e os Jones-filhos arrasam na escola. As vendas de tudo o que usam disparam. O capitalismo triunfa."


Texto Eliane Brum - ÉPOCA

domingo, 2 de maio de 2010

A Europa está falindo


Tudo leva a crer que a Europa vai passar por um longo período de crise, puxado pela mega crise na Grécia. Agora, Alemanha, Inglaterra, França e Espanha vão ter que partir em socorro aos gregos, mesmo a contra gosto dos alemães. Se não ajudar o bicho pega e a coisa pode ficar ainda pior. O Euro está doente.

O dólar também está doente, e a economia americana também vai mal. E agora chegou a hora da minha pergunta: Quem fica bem com essa história toda? Nós, claro! E ainda pra ajudar, a revista Time coloca o nosso presidente entre os 100 lideres mais influentes no mundo. Mas os anti-Lula podem ficar tranqüilos, pois fosse qual fosse o presidente, ele estaria nessa lista. Isso é uma vitória do país e não de um homem só.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Reflexões entre Amigos

"A condição humana será sempre bem-vinda às nossas reflexões. Será sempre a base de uma boa prosa, afinal, toda vez que sobre ela refletimos, de alguma forma estamos alterando o que somos."
(...)
Sua carta me fez recordar da ágora, a praça grega que foi lugar onde as experiências filosóficas ganharam caráter dialético. A ágora era um lugar de encontro. A principal atividade que os gregos exerciam por lá era a troca de mercadorias. Mas, naquele grande mercado a céu aberto, uma outra troca acontecia a ponto de prevalecer sobre as outras. Era a troca de ideias. Enquanto a materialidade era negociada sempre sobrava espaço para uma conversa, uma troca de opiniões.
Tive um grande professor de História da Filosofia que fazia questão de nos dizer que foi na ágora que a filosofia assumiu o seu verdadeiro papel na sociedade. A filosofia do cotidiano, a reflexão nossa de cada dia. A arte de articular o pensamento como realidade dialética, que extrapola a verdade hermética, fechada, mas que se abre à percepção do outro.

A filosofia que é construída a partir da vida concreta das pessoas. A trama da existência e seus fios tão cheios de nuances. A filosofia como tear que tece e favorece a compreensão do entrelaçamento das linhas."
- Fábio de Melo (Cartas entre Amigos - Sobre Perder e Ganhar)

WINTER SONGS



quinta-feira, 29 de abril de 2010

A vitimização da inveja


Hoje eu vi num Msn a seguinte frase: "A felicidade dos outros corrói, causa inveja.”

Reparem como é sempre “um alguém que sente inveja de mim”, nunca o contrário. Ninguém escreve no Msn; “hoje EU tô morrendo de inveja da fulana de tal.”
Quando a pessoa assume a inveja, ela diz que é uma “inveja boa”. Oras, como se existisse inveja boa! A inveja no caso só é boa porque é Ela quem sente, se fosse o Outro, ia ser inveja ruim mesmo.

Mas eu pensei o seguinte: será que não tem pessoas que se especializam em causar inveja? Tudo que a pessoa faz é de caso pensado pra causar inveja/desejo em alguém; compra coisas pra causar inveja, faz viagens pra causar inveja, tira fotos pensando em mostrar pra causar inveja, usa certas marcas (grifes) pra causar inveja, e por aí vai. Eu mesmo conheci uma pessoa que não tinha o menor pudor em dizer que ia fazer tal coisa só pra causar inveja numa colega (rival). Aí essa mesma pessoa que fez inveja pra outra, diz que os outros sentem inveja dela. Pois é...
Dizer que alguém sente inveja dela, a torna ainda mais desejável (lhe dá mais status). Quanto mais gente sentindo inveja da pessoa, mais desejada ela se torna.

Tudo isso é demasiadamente humano; um círculo vicioso que gera violência.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

A compreensão frente ao Outro

(Emmanuel Lévinas)

"O problema do Outro, a nossa atitude face a ele, constitui um dos temas principais das reflexões de Emmanuel Lévinas. Decorre de um tipo de reacção que teve em relação às experiências da primeira metade do século XX, e que conduziu à crise da civilização ocidental, particularmente a degradação das relações interpessoais entre o Eu e o Outro.

Emmanuel Lévinas, de origem judaica, e tendo nascido na Lituânia, tornou-se num filósofo francês da tradição fenomenológica, vindo a falecer em Paris em 25 de Dezembro de 1995.

É no face-a-face humano que irrompe todo o sentido. É diante do rosto do Outro que o sujeito dá conta que é um ser responsável. O Outro é alteridade, que não é um simples inverso da identidade, mas a incorporação de um Outro no Si-próprio sem resistência. Neste caso o Outro não é verdadeiramente outro. A colectividade do ‘nós’ não é um plural de ‘eu’. A obra de Lévinas transmite o alerta de uma emergência ética de se repensar os caminhos da filosofia a partir de um novo prisma, de se partir do Eu em direcção ao Outro. Uma tal inspiração Lévinas foi buscá-la aos Livros Sapienciais da Bíblia.

O tempo da consciencialização de Lévinas coincide com a formação da sociedade de massas na Europa e com o surgimento de dois sistemas totalitários: o comunismo e o fascismo. O homem da ‘sociedade de massas’ ao concretizar-se em massa amorfa e anónima, vai transformar-se em barbárie, que é a ausência de qualquer relação interpessoal. É a indiferença pelo Outro, e, devido à sua desestruturação social, se vai tornar mais vulnerável, e com isso mais propenso para o mal. Daí todas as trágicas consequências que emergiram em meados do século XX, que para Lévinas tem o seu expoente máximo de desumanidade em Auschwitz e no Holocausto.

Lévinas diz não só que é preciso encontrar o Outro, como recebê-lo em franco convívio. E chama a nossa atenção para que sejamos sensíveis perante o rosto do Outro, apesar de ser diferente. O rosto é o modo como o Outro se nos apresenta. Não terá que ser exactamente uma imagem. O rosto de Outrem destrói em cada instante e ultrapassa a imagem plástica que ele nos deixa, não se manifestando por essas qualidades mas exprimindo-se.

Lévinas diz que o Outro é sempre uma pessoa singular, um indivíduo. O homem quando está sozinho é sempre melhor ser humano do que quando está no meio duma multidão, duma massa excitada. Como indivíduos costumamos ser mais sensatos e melhores pessoas. A inserção num grupo pode transformar um indivíduo tímido e amável num ser diabólico. Lévinas quis livrar-nos do egoísmo e da auto-exclusão."

terça-feira, 27 de abril de 2010

Desejo pelo desejo do meu 'modelo'


"A partir de Freud o homem nunca mais foi o mesmo; tornou-se mais desejoso. Passou a cobiçar mais, a invejar mais, a desejar mais. O licencioso transmutou-se em lícito. Talvez seja inspirado na pesquisa do Doutor de Viena e em outros que Girard tem dedicado uma relevante atenção à questão do desejo. Em seu livro 'Mensonge Romantique e VéritéRomanesque' (Paris: 1961) discorre largamente sobre a questão, aventando a hipótese do Desejo Triangular, como motor de várias expressões literárias, adejando de Dostoieviski a Stendhal. Em A 'Violência e o Sagrado' o tema retorna com colorações diferentes, do Desejo Mimético.

A mímese é de inestimável valor para toda a Literatura. No eito da Poética de Aristóteles, todos os críticos de um modo ou de outro se hão com esse aspecto do complexo teórico. Girard direciona-se à questão ínvida da mímese. Muito mais do que a imitação da ação, ela se torna especificação do desejo assumindo uma morfologia adjetival e, portanto, complementar.
Ao mostrar o homem como um ser que sabe perfeitamente o que deseja, ou, se aparentemente não o sabe, como um ser que sempre tem um "inconsciente" que sabe por ele, os teóricos modernos talvez tenham neglicenciado um domínio onde a incerteza humana é a mais flagrante. Uma vez que seus desejos primários estejam satisfeitos, e às vezes mesmo antes,o homem deseja intensamente, mas ele não sabe exatamente o quê, pois, é o ser que ele deseja, um ser do qual se sente privado e do qual algum outro parece-lhe ser dotado. O sujeito espera que este outro diga-lhe o que é necessário desejar para adquirir este ser. Se o modelo, aparentemente já dotado de um ser superior, deseja algo, só pode se tratar de um objeto capaz de conferir uma plenitude de ser ainda mais total. Não é através de palavras, mas de seu próprio desejo que o modelo designa ao sujeito o objeto sumamente desejável."
- René Girard